É evidente que estamos diante de uma mudança profunda na realidade da humanidade.
O nascimento e o desenvolvimento de crianças com características que exigem um outro olhar deixaram de ser uma exceção silenciosa para se tornar uma realidade cada vez mais presente nas famílias, nas escolas, nos consultórios médicos e em toda a sociedade.
TEA, TDAH, TDA, TOD e tantas outras siglas passaram a fazer parte do cotidiano de pais, professores, pediatras e profissionais da saúde. Ao lado delas, também estão as pessoas com deficiência, que há décadas lutam pelo direito à inclusão, ao cuidado, à autonomia e à dignidade.
Não há mais como passar indiferente diante dessa realidade.
Como pai de um menino autista, passei a compreender a profundidade desse tema de uma maneira que nenhum livro ou discurso poderia me ensinar.
O Davi é um menino adorável, inteligente, muito verdadeiro e com características próprias. É autista, nível de suporte 1. Tem seletividade alimentar, irritabilidade em determinadas situações e sensibilidades a barulhos, cheiros, brilhos e outros estímulos.
Até chegarmos a um certo equilíbrio que lhe permitisse viver com mais autonomia, foi um caminho longo.
E, principalmente, foi um caminho de muita luta da mãe.
Ela esteve ao lado dele em inúmeros médicos, terapeutas e escolas. Foram quatro escolas em Londrina. Em algumas delas, depois de crises mais intensas, veio a exclusão.
Ainda hoje, cada telefonema da escola faz o coração dessa mãe palpitar mais forte.
É preciso estar disponível. É preciso compreender. É preciso correr.
E estou falando de uma família que conseguiu oferecer atenção, acompanhamento, terapias e disponibilidade.
Mas e as outras famílias?
Passei a acompanhar grupos e associações de mães atípicas e comecei a perceber uma realidade que considero próxima de uma calamidade pública.
Famílias esperando por diagnóstico. Crianças e adolescentes enfrentando longas filas para conseguir atendimento especializado. Poucos neuropediatras disponíveis na rede pública. Dificuldade de acesso a terapias. Famílias que, mesmo tendo plano de saúde, muitas vezes precisam enfrentar uma verdadeira batalha para garantir aquilo que seus filhos necessitam.
E não estamos falando apenas de números.
Estamos falando de crianças.
Estamos falando de famílias inteiras que adoecem junto.
Estamos falando de mães que deixam seus empregos, pais que mudam suas rotinas, irmãos que também precisam ser cuidados e famílias que passam anos tentando construir uma rede mínima de apoio.
Recentemente, novas iniciativas legislativas e políticas públicas começaram a avançar nessa área. O Brasil também instituiu uma Política Nacional de Educação Especial Inclusiva, reforçando o direito dos estudantes com TEA e outras condições abrangidas pela educação especial à inclusão, ao apoio necessário, à participação e à aprendizagem.
Mas ainda estamos longe de responder à dimensão do problema.
Precisamos pensar grande.
Defendo um verdadeiro choque orçamentário e estrutural para o atendimento das pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento.
Precisamos de uma rede pública capaz de identificar precocemente as necessidades de cada criança e oferecer o atendimento adequado à sua realidade.
Precisamos de diagnóstico mais qualificado e de equipes multiprofissionais.
Precisamos ampliar o acesso às terapias.
Precisamos apoiar as famílias.
Precisamos preparar nossas escolas.
E precisamos parar de imaginar que inclusão significa simplesmente colocar uma criança dentro de uma sala de aula e entregar a ela um professor de apoio.
Isso, sozinho, não resolve.
As salas de aula já estão, muitas vezes, lotadas. Os professores estão sobrecarregados. E cada criança possui necessidades, potencialidades e formas de aprendizagem diferentes.
A própria política educacional brasileira mais recente aponta para a necessidade de apoios individualizados, adaptações razoáveis, Atendimento Educacional Especializado e articulação entre diferentes setores.
Por isso, precisamos pensar em um modelo muito mais amplo.
Um modelo que envolva saúde, educação, assistência social, famílias e comunidade.
Não podemos continuar tratando essa questão apenas quando a crise acontece.
Precisamos construir uma rede antes da crise.
Em minhas andanças pela pré-campanha, participando de plenárias grandes e pequenas, costumo fazer uma pergunta:
“Tem alguém aqui que não tenha uma criança ou um adolescente autista na família?”
Geralmente vem o silêncio.
Depois, começam os relatos.
Uma mãe conta sua história.
Um pai fala do diagnóstico.
Uma avó lembra do neto.
Alguém fala da dificuldade para conseguir terapia.
Outro fala da escola.
E então percebemos que o autismo não está distante de nós.
Ele está dentro das nossas famílias, das nossas escolas e das nossas comunidades.
Por isso, não acredito que possamos enfrentar esse desafio com ações isoladas.
Uma prefeitura pode fazer um excelente trabalho. Um Estado pode criar um programa importante. Uma associação pode transformar a vida de dezenas de famílias.
Tudo isso é necessário.
Mas não é suficiente.
Precisamos de um esforço nacional, envolvendo União, Estados, municípios, profissionais, universidades, escolas, famílias e sociedade civil.
Precisamos de planejamento, financiamento, integração entre políticas públicas e metas claras.
Precisamos transformar experiências isoladas em políticas permanentes.
O Brasil precisa se preparar para essa nova realidade.
Não apenas porque os números estão mudando.
Mas porque cada criança importa.
Davi me ensinou isso de uma maneira que nenhum discurso político seria capaz de ensinar.
E talvez seja justamente por isso que essa discussão não possa mais esperar.
O trabalho não pode parar.
André Vargas
Candidato a Deputado Federal
Nada de milagre, nada de cura, nada de "superação". Autismo não é doença e a pessoa autista não é um projeto a ser consertado. O que falta é acesso.
O que ele vai defender em Brasília
Fazer valer o novo símbolo de acessibilidade
A Lei 15.459, de julho de 2026, trocou a cadeira de rodas pelo símbolo da ONU — que representa todas as deficiências, não só a de mobilidade. Agora é preciso fiscalizar a troca em prédios públicos, estacionamentos e transporte.
Diagnóstico sem fila de anos
Fila de diagnóstico é a porta de tudo: sem laudo, não há terapia, escola adaptada, benefício nem carteirinha. Ampliar a rede pública e cobrar prazo.
Terapia é direito, não luxo
Fono, terapia ocupacional e acompanhamento não podem depender de plano caro ou de mudar de cidade. Cobertura garantida e serviço perto de casa.
Apoio de verdade na escola
Matrícula garantida já é lei. Falta o que faz a lei funcionar: profissional de apoio, formação para o professor e turma que caiba a criança.
CIPTEA em qualquer cidade
A carteirinha de identificação (Lei 13.977/2020) garante atendimento prioritário — mas ainda depende de onde a pessoa mora. Isso precisa ser igual no país inteiro.
Renda pra quem cuida em tempo integral
Mãe ou pai que não pode trabalhar porque o cuidado é em tempo integral não pode ficar sem nada. Atenção integral à família cuidadora, e BPC desburocratizado: menos entrave pra entrar, menos corte arbitrário pra sair.
Trabalho, e não só cota no papel
Entrar no emprego é metade. A outra metade é se manter — com adaptação, chefia orientada e fiscalização de quem descumpre.
Quem atende precisa saber atender
Formação para saúde, escola, assistência e segurança. Muita violência acontece por despreparo de quem deveria acolher.
Reparou que o símbolo mudou?
Desde julho de 2026 este é o símbolo oficial de acessibilidade no Brasil, no lugar da cadeira de rodas. A figura de braços abertos foi criada pela ONU e representa todas as deficiências — inclusive as que não se vê. A cadeira dizia que acessibilidade era só questão de mobilidade, e não é.
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